Você abre a IA, pede um texto para o seu site e vem aquilo. Correto. Bem escrito. E completamente sem graça. Podia ser de qualquer negócio do país.
A conclusão fácil é que a IA não presta para isso. Quase sempre não é o caso.
Eu sou dono de um negócio de entretenimento infantil em shopping centers e refiz o meu marketing inteiro assim: site, páginas de campanha, e-mails, anúncios. No começo eu também recebia texto de brochura. O que mudou não foi a ferramenta. Foi o que eu entreguei antes de pedir.
Este post é sobre essa parte. É a etapa mais chata do processo todo, e é a única que se paga em absolutamente tudo que vem depois.
Resultado genérico quase sempre é contexto genérico
Pense em como você contrataria uma pessoa nova para escrever sobre o seu negócio.
Você não mandaria ela escrever no primeiro dia. Você mostraria a loja, contaria quem compra, explicaria por que o cliente escolhe você e não o concorrente da esquina. Mostraria as fotos, o catálogo, as mensagens que os clientes mandam.
Depois disso, o texto sai com a sua cara.
Com a IA a lógica é idêntica, e a maioria das pessoas pula essa parte. Elas abrem uma janela em branco, escrevem "faça um texto para o site da minha empresa de X" e recebem exatamente o que pediram: um texto para uma empresa de X. Qualquer empresa de X.
A régua é simples. A qualidade do que sai é proporcional ao contexto que entrou. Se o resultado veio raso, olhe primeiro para o que você deu.
As seis informações que mudam tudo
Você não precisa escrever um documento de trinta páginas. Precisa acertar seis pontos. Eles são o esqueleto de qualquer peça que a IA vá criar para você depois.
1. O que você faz, em uma frase de gente normal. Sem categoria de mercado, sem nome bonito. O que o cliente leva embora. "Vendo bolo caseiro por encomenda para festa" vale mais que "atuo no segmento de confeitaria artesanal premium".
2. Para quem. Quem é a pessoa que paga. Idade aproximada, momento de vida, o que ela quer resolver e, principalmente, do que ela tem medo. O medo é o mais valioso e o mais esquecido. Cliente de serviço tem medo de ser enganado, de atraso, de não conseguir cancelar, de pagar caro à toa. Uma peça que responde ao medo vende mais que uma peça que elogia o produto.
3. Onde você atua. Cidade, bairro, região, ou o país inteiro se você vende online. Isso muda o texto, as palavras que aparecem no Google e até a estrutura da página.
4. Seu diferencial de verdade. Não vale "qualidade e atendimento". Todo mundo diz isso, então não diz nada. Vale o que é concreto: você entrega no mesmo dia, você é o único da região que faz aquilo, você atende no domingo, você dá garantia que ninguém dá.
5. Preço, ou a faixa de preço. Muita gente esconde isso da IA por pudor. É um erro. Preço define o tom da peça inteira. Um serviço de trezentos reais e um de oito mil não se vendem com o mesmo texto, nem com as mesmas provas, nem com o mesmo botão.
6. O tom da sua marca. Próximo e divertido, ou sério e técnico? Você fala "você" ou "senhor"? Tem alguma palavra que você odeia? Diga. Isso poupa dez rodadas de correção.
Junte esses seis pontos num rascunho solto, do jeito que sair. Não precisa estar bonito. Precisa estar completo.
O material que você já tem e nunca entregou
Aqui está o atalho que quase ninguém usa.
Você já produziu, ao longo dos anos, uma pilha de material que descreve o seu negócio melhor do que você conseguiria descrever agora, de memória, numa tarde. E ele está parado.
Entregue tudo:
- Seu Instagram. Mande o perfil e peça para a IA ler as suas legendas. É de lá que ela tira o seu jeito de falar, muito melhor do que da sua tentativa de explicar o seu jeito de falar.
- Fotos reais. Do espaço, da equipe, do produto, dos clientes usando. Elas dizem à IA o nível e a atmosfera do que você vende.
- Catálogo, tabela de preços, cardápio. O que existe e quanto custa, sem arredondar.
- Logo, cores e fontes, se você tiver. Se não tiver, tudo bem, isso se resolve depois.
- Textos antigos. Aquele folder, o site velho, o PDF de apresentação que você mandava por e-mail. Mesmo desatualizado, ele carrega informação.
- As perguntas que os clientes mais fazem. Abra o WhatsApp do negócio e copie as cinco dúvidas que mais aparecem. Isso vira a seção de perguntas frequentes do site sozinho, e vira também a lista de objeções que a página precisa quebrar.
Esse pacote transforma o resultado mais do que qualquer truque de escrita de comando.
Deixe a IA te entrevistar, em vez de você adivinhar o que ela precisa
Essa é a virada que resolveu o problema para mim.
O erro é achar que a sua função é adivinhar tudo que a IA precisa saber e despejar de uma vez. Você não sabe. Ela sabe perguntar.
Então inverta. Peça para ela te entrevistar antes de criar qualquer coisa. Uma pergunta por vez, até ela entender o negócio, o cliente e o objetivo.
Duas coisas acontecem quando você faz assim.
A primeira: ela pergunta o que você não teria contado. Coisas que para você são óbvias demais para merecer menção, e que são justamente o que diferencia o seu negócio.
A segunda: uma pergunta por vez força resposta pensada. Quando vem um formulário de quinze perguntas de uma vez, você responde tudo em duas linhas para se livrar. Quando vem uma só, você responde direito.
A entrevista leva meia hora. É chata. É o único momento realmente entediante de montar o próprio marketing, e eu não vou fingir que é divertido. Mas ela acontece uma vez e serve para o site, para as páginas de campanha, para os e-mails, para os anúncios e para tudo que você pedir nos meses seguintes.
Um consultor cobraria essa etapa como briefing. Ela é uma tarefa de meia hora que você faz sozinho.
Onde esse contexto fica guardado, e por que isso importa em toda peça seguinte
Tem um detalhe prático que faz diferença enorme e é fácil de ignorar.
Contexto que mora numa conversa perdida no histórico não serve para nada. Se toda vez que você abre a IA precisa reexplicar o negócio, você não construiu uma base, você repetiu trabalho.
A solução é ter um lugar fixo. Uma pasta única do projeto no seu computador, ou um documento de contexto que você anexa sempre, dependendo da ferramenta que você usa. O importante é o princípio: o contexto do seu negócio é um arquivo, não uma lembrança de conversa.
Quando ele fica guardado, o efeito é cumulativo. A primeira peça sai boa. A segunda sai melhor, porque a IA já tem a primeira como referência de tom. Na décima, ela escreve mais parecido com você do que um redator contratado escreveria em três meses.
É a diferença entre uma equipe com arquivo organizado e uma que recomeça do zero toda segunda-feira.
Como conferir se ela entendeu antes de mandar construir
Nunca mande construir direto. Peça um resumo primeiro.
Depois da entrevista, peça para a IA devolver, com as palavras dela: o que o seu negócio faz, quem é o cliente ideal, quais são as três maiores objeções desse cliente, qual é o seu diferencial e qual é o tom da marca.
Leia esse resumo com atenção. Você vai encontrar um ou dois erros, e eles são sempre reveladores.
Se ela descreveu o seu cliente errado, o site inteiro ia falar com a pessoa errada. Se ela entendeu o seu diferencial como preço baixo quando ele é atendimento, todos os textos iam competir na dimensão errada. Corrigir isso agora leva dois minutos. Corrigir depois que o site está pronto leva a tarde inteira.
É o mesmo motivo pelo qual uma agência boa manda um documento de estratégia antes de mandar o layout. A diferença é que aqui isso acontece em minutos, não em três reuniões.
O erro que custa mais caro: mudar o contexto no meio do caminho
Esse é o que mais dói, porque você só percebe quando já está fundo.
Você monta tudo com base num posicionamento. No meio do caminho, resolve que na verdade o foco é outro público, ou outro produto, ou outro preço. Aí você começa a corrigir as peças uma a uma, e o resultado é um conjunto que não conversa entre si: um site que fala com um público, uma página de campanha que fala com outro, um anúncio com uma promessa que a página não cumpre.
A regra que eu sigo é simples. Mudança de contexto não se corrige na peça, se corrige no contexto. Você atualiza a base, avisa que ela mudou, e pede para a IA revisar todas as peças à luz do que mudou. Uma passada só, com tudo alinhado.
Se você decidir mudar de rumo, mude cedo e mude na raiz. Remendo por cima de remendo é como a colcha de retalhos que você está tentando abandonar.
O que fazer nesta semana
Não precisa de plano. Precisa de meia hora.
Junte as seis informações num rascunho. Separe o material que você já tem, o Instagram, as fotos, o catálogo, as dúvidas mais frequentes do WhatsApp. Abra a IA e peça para ela te entrevistar antes de criar qualquer coisa. Peça o resumo. Corrija o que estiver errado. Guarde tudo num lugar fixo.
Pronto. Você acabou de fazer a parte que separa quem recebe texto de brochura de quem recebe peça com a cara do próprio negócio.
E tem uma informação que faz parte desse contexto e quase ninguém tem anotada: quanto o seu negócio paga hoje para conquistar um cliente novo. É o número que nenhuma agência entrega no relatório. O Raio-X do custo por cliente é um PDF curto e gratuito, entregue por e-mail, com um prompt que você cola numa IA de graça. Ela te faz algumas perguntas sobre o negócio e devolve o número em cerca de cinco minutos.
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